O futebol ficou lento ou nós ficamos rápidos demais? O que isso diz sobre atenção
Título original na news: “O futebol ficou lento ou nós ficamos rápidos demais?”
Como bom gremista, morando em Porto Alegre e sócio do Tricolor, comecei a acompanhar mais jogos presencialmente. E uma coisa vem me incomodando: em vários momentos, tenho a sensação de estar assistindo a partidas passivas, com pouca movimentação e longos períodos em que quase nada acontece. Pode ser simplesmente o nível dos times, e acho que existe bastante disso. Mas também pode existir uma espécie de ressaca depois de uma Copa do Mundo intensa, que terminou com 308 gols em 104 jogos, média de 2,96 por partida, a maior em um Mundial desde 1970 (Fonte: FIFA, 20/07/2026).
Só que essa sensação me levou para uma pergunta maior: e se o problema não estiver apenas dentro de campo? E se nós também tivermos mudado?
Hoje consumimos entretenimento em uma lógica de intensidade. Feed, cortes, vídeos curtos, notificações, múltiplas telas e informação chegando o tempo inteiro. Nossa régua de estímulo mudou. E quando levamos esse comportamento para duas horas de um esporte que naturalmente tem momentos de construção, pausa e espera, a percepção também muda.
Foi justamente aí que uma fala do Guto Massena, na semana passada, sobre a Copa do Mundo, conectou alguns pontos para mim. O Guto criou o Rádio Gaúcha Memes a partir de uma mídia extremamente tradicional, a Rádio Gaúcha, especialmente do universo do Sala de Redação e do futebol. Só que ele não tentou substituir aquele conteúdo. Criou uma nova camada em cima dele.
O que antes terminava no rádio passou a circular como meme, corte, piada interna e conversa entre pessoas que compartilham o mesmo repertório. O conteúdo original continua existindo, mas agora existe outra forma de consumir, distribuir e participar dele.
A Copa mostrou essa lógica em uma escala muito maior com a CazéTV. Não era apenas transmitir a partida. Existiam influenciadores, bastidores, humor, desafios, reacts e conteúdos pensados para continuar a conversa muito além dos 90 minutos.
E talvez esse seja um ponto importante: o consumidor não quer necessariamente apenas assistir. Ele quer comentar, compartilhar, participar, criar códigos e sentir que pertence àquela conversa.
É aí que entretenimento começa a virar comunidade.
E comunidade mantém o esporte acontecendo mesmo quando a bola não está rolando.
Só que essa mudança de comportamento também começa a pressionar o próprio produto esportivo. No tênis, o GOAT Novak Djokovic sugeriu reduzir os sets de seis para quatro games, possivelmente eliminar a vantagem e buscar partidas dentro de uma janela próxima de duas horas. A discussão por trás disso é justamente tornar o esporte mais compatível com uma geração menos disposta a permanecer quatro ou cinco horas acompanhando uma mesma partida.
A provocação é boa: até onde um esporte consegue preservar sua tradição sem ignorar que a forma de consumir entretenimento mudou?
O outro lado dessa discussão aparece no basquete. As finais da NBA de 2026, entre Knicks e Spurs, tiveram média de 20,6 milhões de espectadores nos Estados Unidos, a maior audiência das Finals em 28 anos. O jogo decisivo teve média de 24,5 milhões, pico de 33 milhões, e a série acumulou aproximadamente 15 bilhões de visualizações nas redes sociais (Fonte: NBA, 18/06/2026).
Não dá para resumir esse resultado apenas ao ritmo do jogo, claro. Mas o basquete conversa muito bem com essa nova lógica de consumo: posses curtas, placar mudando o tempo inteiro, decisões rápidas e uma sequência enorme de acontecimentos que podem virar corte, meme, discussão ou conteúdo quase instantaneamente.
Não significa que futebol precise virar basquete ou que tênis precise virar TikTok. Mas existe um aprendizado importante sobre ritmo e, principalmente, sobre tudo aquilo que pode ser construído ao redor da competição.
Porque sabemos que o esporte segue movimentando fortunas. Existe paixão, mas existe muito business também. Um time não é apenas jogadores e estádio. É propriedade intelectual, mídia, distribuição, audiência, comunidade e atenção concentrada.
E talvez o grande desafio esteja justamente nos jogos em que a paixão, sozinha, não sustenta a atenção. Como fazer alguém acompanhar mais partidas durante o ano? Como transformar um espectador eventual em alguém conectado à competição? Como continuar interessante quando não existe um clássico, uma final ou um grande evento acontecendo?
É nesse espaço que conteúdo, creators, comunidades e marcas começam a ganhar ainda mais relevância.
Para as marcas, patrocinar esporte talvez precise significar muito mais do que colocar um logo na placa ou na camiseta. A pergunta passa a ser: como eu participo da comunidade que existe em volta desse esporte? Que conteúdo posso ajudar a criar? Que experiência posso melhorar? Que conversa já está acontecendo e como minha marca entra nela sem parecer uma interrupção?
E para os próprios esportes fica uma provocação parecida. Tradição faz parte do produto e não deveria ser descartada simplesmente para seguir uma tendência. Mas ignorar que o consumidor mudou parece igualmente perigoso.
Olhando de forma transversal, esporte, mídia, creators, comunidades e marcas estão começando a ocupar o mesmo território. O jogo continua sendo o centro, mas o valor econômico e a disputa pela atenção estão cada vez mais em tudo que acontece antes, durante e depois dele.
Talvez a questão não seja simplesmente deixar o esporte mais rápido.
Talvez seja entender como fazer com que, mesmo quando o jogo estiver lento, a comunidade continue em movimento.
Filipi Erthal
Filipi Erthal é fundador da Erthal&Co, desenvolvedora de negócios com base no Instituto Caldeira, em Porto Alegre. Por quase seis anos tocou um posto de combustíveis em Montenegro. Tem trajetória em varejo, indústria e negócios próprios, formação em Administração e pós em Neurociência e Comportamento. Hoje atua como parceiro estratégico de líderes que constroem no mundo real.