Inovar é saber ver: o que a Semana Caldeira 2026 ensinou sobre IA e negócios
Título original na news: “Inovar é saber ver”
A Semana Caldeira foi intensa, com uma densidade enorme de conteúdo, pessoas e oportunidades. Um momento bom para rever amigos, conhecer novas pessoas e circular por várias pautas, mesmo com a IA dominando boa parte das conversas. Mas nem tudo são flores. Escutei gente muito experiente falando sobre as dificuldades de empreender, a instabilidade do Brasil e uma competição cada vez mais acirrada e acelerada pela tecnologia.
Inspirada na capacidade de observação de Leonardo da Vinci, a edição de 2026 trouxe o conceito de saper vedere, ou “saber ver”. A proposta era discutir os impactos da inteligência artificial no cotidiano das pessoas e das empresas, mas também a importância de preservar o pensamento crítico diante de tantas respostas automatizadas. A programação anunciava mais de 300 conteúdos em dez palcos, ao longo de cinco dias, e teve mais de 5 mil pessoas circulando em um único dia. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, exigindo de cada um justamente isso: escolher onde colocar a atenção.
Pra mim, foi uma oportunidade gigante. Fico muito contente em ter a Erthal&Co fazendo parte desse ecossistema e poder viver essas trocas de perto. São repertórios se cruzando e ajudando a entender novos momentos. E um encontro de corredor pode abrir uma possibilidade que nem estava no radar.
Confesso que não foi uma semana fácil de digerir. Ouvir grandes nomes reconhecendo o tamanho dos obstáculos também pesa. Quem está empreendendo sente isso nas decisões diárias, na dificuldade de planejar, na disputa pela atenção do cliente e na pressão para acompanhar mudanças enquanto precisa manter a operação funcionando. Em alguns momentos, parece que a gente ainda está tentando entender uma transformação e já tem outra pedindo passagem.
Mas, no meio disso tudo, encontrei alguns respiros. Gente disposta a compartilhar o que aprendeu, aproximar empresas, discutir problemas reais e buscar alternativas conjuntas. Não saí com a sensação de que existe um movimento certeiro, uma decisão capaz de resolver tudo. Saí pensando que vamos precisar testar caminhos, mexer nas peças, reorganizar prioridades e ajustar a rota conforme entendemos melhor essa nova realidade.
Olhando especialmente para o Rio Grande do Sul, isso ganha outro peso. Depois de tudo que vivemos, ver o Caldeira reunindo tanta gente e tantas possibilidades me deixa contente. Enxergo ali uma expressão de resiliência e também dessa ideia de antifragilidade: aprender com os desafios e sair deles mais preparado. Sem romantizar as dificuldades, porque elas têm custos reais. Mas reconhecendo o valor de um movimento que continua aproximando pessoas e criando condições para novas construções.
Minha ideia inicial era trazer insights valiosos da semana e compartilhar com vocês aqui. Só que foram tantas coisas acontecendo simultaneamente que ainda não encontrei a melhor forma de fazer essa curadoria. De qualquer forma, fico disponível para trocarmos. Pode responder a este mesmo e-mail que alinhamos esse papo.
Entre tantas falas, porém, um contraste me chamou a atenção. Os empresários mais experientes que tive a oportunidade de escutar, eu diria os de 70 anos ou mais, trouxeram algumas das mensagens mais tranquilizadoras e energizantes. Repetiam que já tinham passado por muitos desafios e seguiam construindo. Se tiverem a oportunidade de ter um mentor dessa geração, aproveitem. Nessas horas, bate a saudade da sabedoria do meu vô, Valdir Nunes.
Já algumas falas da turma dos 50 me assustaram. Senti uma postura mais defensiva e discursos que pareciam ampliar a sensação de caos. Perturbadores, eu ousaria dizer. Foi a minha percepção de quem ouvi naquela semana, e esse contraste reforçou algo importante: busquem diferentes referências. A forma como alguém interpreta uma dificuldade também influencia a nossa disposição para enfrentá-la.
E, mantendo a intenção de fazer sempre uma análise transversal, talvez seja essa a atenção que levo da semana. A IA mexe com a forma de comprar, mas também com a confiança nas marcas, com o trabalho das equipes e com as decisões de quem lidera. O cenário econômico aperta o caixa e exige repensar processos, parcerias e prioridades. E as referências que escolhemos ouvir influenciam como reagimos a tudo isso. Saber ver passa por perceber essas conexões e escolher o que fazer com elas. Movimento segue sendo a solução.
Filipi Erthal
Filipi Erthal é fundador da Erthal&Co, desenvolvedora de negócios com base no Instituto Caldeira, em Porto Alegre. Por quase seis anos tocou um posto de combustíveis em Montenegro. Tem trajetória em varejo, indústria e negócios próprios, formação em Administração e pós em Neurociência e Comportamento. Hoje atua como parceiro estratégico de líderes que constroem no mundo real.