O que a maratona me ensinou sobre decisões difíceis nos negócios
Título original na news: “Sobre a decisão de aprender com o endurance”
Faz um tempo que já venho me desafiando no endurance e, neste final de semana, entreguei minha primeira maratona: 3h34min, correndo em um ritmo desafiador para o meu momento físico. Só que o aprendizado que venho tendo com meu corpo e com a minha mente é algo que tem refletido muito nas decisões da minha vida, principalmente na capacidade de sustentar momentos difíceis e encontrar saídas diante dos desafios. Por muito tempo, em momentos mais complexos, algumas das minhas decisões acabavam me levando para situações ainda mais complicadas. O endurance vem me ajudando a desenvolver uma sensibilidade diferente sobre isso.
Eu aprendi a perceber melhor o quanto sono, alimentação, rotina e recuperação interferem na minha performance profissional. Eu já tinha conhecimento sobre essa interferência, mas o esporte me fez parar de apenas saber e começar a sentir o tamanho dela. Tem uma diferença importante entre conhecimento e sensibilidade. Todo mundo sabe que dormir mal prejudica, mas, quando tu treina endurance, consegue perceber quase em tempo real o custo daquela noite ruim: frequência cardíaca diferente, percepção de esforço maior, ritmo que não encaixa, recuperação pior. A relação entre decisão e consequência fica muito mais visível.
O corpo se torna uma espécie de laboratório de decisões. Sono, alimentação, descanso, estresse, intensidade, rotina: são muitos detalhes e variáveis que, quando acumulados, viram performance ou falta dela. No trabalho acontece algo parecido, só que o feedback costuma demorar mais e existem muito mais variáveis confundindo nossa leitura. Talvez por isso o esporte tenha aumentado minha sensibilidade para perceber que dificilmente uma grande performance é resultado de uma única grande decisão. Normalmente, existe uma sequência de pequenas escolhas sendo feitas todos os dias.
Os dados também entram muito nessa história. É algo que venho estudando diariamente, desenvolvendo ferramentas e estimulando clientes e amigos a trabalharem com mais embasamento, conhecendo melhor sua empresa, seu cliente e seu mercado. No esporte, isso reitera ainda mais essa percepção. Hoje utilizo várias leituras do meu corpo através de planilhas de treino, frequência cardíaca, pace e outros indicadores. O ponto é que o dado ajuda a confrontar sensação com realidade. Às vezes tu acha que está bem e os indicadores mostram outra coisa. Às vezes acha que está performando pouco, mas está exatamente dentro da carga planejada. Não significa decidir exclusivamente pelo número, mas ter mais informação para entender o que realmente está acontecendo.
Outro ponto importante dessa história é aprender a respeitar as cargas propostas pelos treinadores, que estudam e planejam o treinamento. Em uma época, eu saía de casa e tentava sempre melhorar o pace, fazer mais força e terminar mais rápido, porque achava que aquilo necessariamente significava evolução. Hoje sei que existem momentos certos para fazer mais força e momentos para segurar. E, respeitando isso, acabo conseguindo entregar boas performances justamente onde tenho como alvo. É o famoso timing e, com certeza, isso vale para muita coisa na nossa vida. Nem sempre fazer mais força significa avançar mais rápido.
E aí entra minha maratona. Que momento. Depois dos 25 km, comecei a viver a prova de uma maneira muito mais intensa. Eu vinha me sentindo bem e acabei colocando um ritmo mais forte do que o planejado. A conta começou a chegar. Perto do km 30, passamos por um corredor humano, com a galera colocando uma energia bizarra, e ouvi um grito que ficou marcado: “Vamo, filho”. Depois dali veio a parte mais complicada da prova, inclusive com uma altimetria pesada. Só que também era um corredor ajudando o outro, incentivando, acompanhando e não deixando desistir. Por isso falam que a corrida é o esporte individual mais coletivo do mundo.
Terminei com uma alegria absurda e com a percepção de que tinha entregado tudo de mim. Meu corpo meio que “colapsou” quando parei. Mas, depois de uma hora, eu já estava pensando na próxima. Para quem curte e está pensando em fazer: faça.
E, fechando com a minha leitura transversal, sei que tem muita gente aqui que é do time da corrida e do triatlo e também uma galera que não é. Meu objetivo não é convencer ninguém a correr uma maratona. É incentivar a buscar um autoconhecimento mais profundo, desafiar-se e encontrar atividades que realmente goste e que, de alguma maneira, também ajudem a estar mais preparado para enfrentar os desafios diários, que são muitos, com mais força e cabeça erguida.
O esporte me ajuda muito nisso e sou muito grato por ter saúde para continuar buscando evoluir. Talvez essa seja a principal relação que encontrei entre endurance, trabalho e vida: entender melhor os sinais, respeitar os momentos, tomar decisões com mais consciência e continuar avançando quando as coisas ficam difíceis.
Filipi Erthal
Filipi Erthal é fundador da Erthal&Co, desenvolvedora de negócios com base no Instituto Caldeira, em Porto Alegre. Por quase seis anos tocou um posto de combustíveis em Montenegro. Tem trajetória em varejo, indústria e negócios próprios, formação em Administração e pós em Neurociência e Comportamento. Hoje atua como parceiro estratégico de líderes que constroem no mundo real.