Como manter o otimismo nos negócios sem perder o senso de realidade?
Título original na news: “Como manter o otimismo sem perder o senso de realidade?”
O Brasil atravessa um período em que o empresário é bombardeado diariamente por sinais negativos. Custo financeiro alto, endividamento, incerteza, consumo pressionado, margens apertadas e dificuldade de planejamento fazem parte de muitas das conversas que tenho tido nos últimos meses. E existe um efeito que vai além dos números: estamos criando um ambiente psicológico de pessimismo. Quando todo mundo ao redor fala que está difícil, que não vende, que não vai investir e que o próximo mês será pior, é muito fácil essa percepção começar a contaminar também a forma como tomamos decisões.
Só que aqui existe uma pegadinha. Ignorar a realidade e simplesmente repetir que “vai dar tudo certo” também é perigoso. Caixa continua sendo caixa, dívida precisa ser paga e margem precisa existir. Em alguns momentos, a decisão correta vai ser conservadora: adiar um investimento, reduzir uma estrutura, rever estoque, mudar preço ou até abandonar um projeto que fazia sentido em outro contexto. Otimismo não pode ser confundido com viver em uma realidade paralela. Existe um cenário complexo acontecendo e ele precisa ser respeitado na hora de decidir.
O problema aparece no outro extremo, quando prudência vira medo e o medo começa a comandar todas as decisões. A empresa deixa de contratar, experimentar, investir, prospectar, testar novos produtos ou buscar novos mercados. O empresário entra em um modo exclusivamente defensivo e, ironicamente, tentando proteger o negócio de qualquer risco, acaba criando outro: ficar parado enquanto o ambiente ao redor continua mudando. Talvez esse seja um dos maiores desafios deste momento: entender a diferença entre proteger o negócio e simplesmente congelá-lo.
É aí que Darwin entra com o seu pensamento, sem cair naquela simplificação de que “sobrevive o mais forte”. O ponto que me interessa é a capacidade de ADAPTAÇÃO. Talvez a pergunta para 2026 não seja simplesmente “quando as coisas vão melhorar?”, mas “se esse ambiente continuar difícil por mais tempo, o que eu preciso aprender a fazer diferente?”. Essa mudança de pergunta parece pequena, mas muda nossa posição diante do problema. Em vez de esperar exclusivamente que o ambiente melhore, começamos a procurar aquilo que ainda está sob nosso controle.
Na prática, isso pode significar rever modelo comercial, canais de aquisição, estrutura de custos, produtividade, portfólio, relacionamento com clientes, uso de tecnologia e IA ou até a maneira como acompanhamos o caixa. Não necessariamente porque tudo estava errado antes, mas porque uma estratégia construída para determinado ambiente pode deixar de funcionar quando o ambiente muda. Enquanto muita gente espera a normalidade voltar, algumas empresas estão aprendendo a operar melhor dentro da “anormalidade”. E talvez parte da vantagem competitiva dos próximos anos venha justamente daí.
Tenho tentado levar essa reflexão também para o lado pessoal. Uma das minhas estratégias tem sido buscar ambientes otimistas e me cercar de pessoas que, mesmo reconhecendo a complexidade, continuam construindo alternativas. Não quero estar perto de quem finge que os problemas não existem, mas também não quero passar meus dias em ambientes onde toda conversa termina na conclusão de que nada pode ser feito. Existe uma diferença enorme entre reconhecer um problema e alimentar permanentemente o pessimismo sobre ele. As pessoas e os ambientes que escolhemos frequentar acabam interferindo na nossa energia, nas perguntas que fazemos e, consequentemente, nas decisões que tomamos.
E mesmo fazendo isso, existem dias ruins. Dias em que as coisas não encaixam, uma decisão dá errado, o caixa preocupa, uma negociação não avança e o pessimismo aparece. Acho que a maturidade também está em aceitar que não existe blindagem capaz de eliminar esses momentos. O que tenho buscado é torná-los mais compactos. Tem dia em que talvez a melhor decisão seja simplesmente descansar, dormir, diminuir o ruído e encarar novamente no dia seguinte. O problema não é ter um dia ruim; é transformar um dia ruim em uma semana ruim, depois em um mês ruim e começar a tomar decisões estruturais contaminado por um estado que poderia ser passageiro.
Olhando de forma transversal, talvez adaptação seja justamente isso: conseguir ler a realidade sem ser engolido por ela. Ter conservadorismo quando o caixa exige, coragem quando aparece oportunidade, capacidade de mudar quando o contexto muda e maturidade para reconhecer quando nós mesmos não estamos no melhor momento para decidir. Nada fácil, mas seguimos.
Filipi Erthal
Filipi Erthal é fundador da Erthal&Co, desenvolvedora de negócios com base no Instituto Caldeira, em Porto Alegre. Por quase seis anos tocou um posto de combustíveis em Montenegro. Tem trajetória em varejo, indústria e negócios próprios, formação em Administração e pós em Neurociência e Comportamento. Hoje atua como parceiro estratégico de líderes que constroem no mundo real.